Cerveja Lager: o que é e sua diferença para a Pilsen

Cerveja Lager: o que é?

Quando você ouvir falar em cerveja lager, precisa ter em mente que existem três grandes famílias de cervejas, sendo apenas Lager uma delas.

Eu explico: 

Essa classificação de famílias se baseia no tipo de levedura utilizada no processo de fermentação.

Existem cervejas fermentadas com leveduras Ale (pronuncia Eiou), com levedura Lager (pronuncia Láguer) e cervejas de fermentação espontânea (ou que utilizam leveduras selvagens).

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Cerveja Ale:

As Ale são cervejas mais antigas que as Lager e são conhecidas também como cervejas de alta fermentação, pois a levedura se concentra na superfície do líquido durante esse processo.

As leveduras Ale também trabalham em temperaturas mais altas, entre 14º e 25º C, são mais rápidas e, digamos, mais “famintas”. Sim, esse tipo de levedura consome mais o açúcar do mosto, produzindo mais álcool.

Cerveja Lager:

Já as cervejas Lager, por sua vez, são mais atuais. Somente a partir do século XIX elas começaram de fato a ganhar o mercado.

Isso se deu, entre outros motivos graças à invenção dos mecanismos de refrigeração, já que as leveduras aqui trabalham a temperaturas mais baixas, por volta dos 10º C.

São conhecidas como cervejas de baixa fermentação, pois as leveduras Lager se concentram no fundo do tanque.

Cerveja de fermentação espontânea:

As cervejas de fermentação espontânea são a família mais peculiar. Há aqui no blog um outro artigo meu apenas sobre elas.

Cada uma dessas famílias possuem uma série de estilos e subestilos, que formam a categorização do mundo cervejeiro.

Mais ou menos como nos ensinaram na Biologia (se aprendemos, é outro ponto), em que há as famílias, gêneros e espécies, na cerveja há as famílias (Lager, por exemplo), estilos (Pilsen, por exemplo) e subestilos (Czech/Bohemian Pilsner, por exemplo).

E o que é uma cerveja Pilsen?

Espera aí, mas é Pilsen ou “tipo Pilsen” afinal?

Aqui começa a ficar um pouco mais confuso mesmo. Vamos desembolar por partes, fazendo uma analogia com o mundo da biologia.

1° – Acompanhe o raciocínio: pilsen é uma das “espécies” da família lager, assim como o humano é uma espécie da família mamífero. Da mesma forma que existem outras espécies bem diferentes de mamíferos (além do homem, temos porco, golfinho, macaco, entre outros), existem também outras espécies de lagers (além da pilsen, temos a bock, a dunkel a rauchbier, entre outras).

2° – No mundo da cerveja, em vez de falar “espécies”, falamos “estilos”.

Pilsen é uma coisa. “tipo Pilsen” é outra. As cervejas de massa são, na verdade, “tipo pilsen” (o nome correto do estilo é American Standard Lager). São estilos relativamente parecidos, mas possuem diferenças consideráveis (confundir ambas é como dizer que lobo e cachorro, por exemplo, são a mesma coisa). Mais à frente vamos entender as diferenças entre as “Pilsens de verdade” e as “American Lagers”.

Conhecidas também como cervejas de massa, as “tipo Pilsen” ainda são a única ideia de cerveja possível no imaginário de muitos brasileiros.

Com a proposta de refrescar e possibilitar o consumo em grandes quantidades, a maior preocupação é tornar a cerveja leve, de fácil assimilação para o grande público e com a menor variação de qualidade possível.

Então para você entender de uma vez por todas. Qual a diferença entre Cerveja Pilsen e Lager, afinal?

Resumindo tudo que vimos acima: toda Pilsen é uma Lager, mas nem toda Lager é uma Pilsen (e nem toda cerveja que se diz Pilsen verdadeiramente o é).

Ou seja, até existe cerveja que é Lager e Lilsen ao mesmo tempo, mas nem sempre será assim.

Para provar isso, vamos a um exemplo prático: a Therezópolis Rubine, que você provavelmente conhece, é Lager e não é Pilsen. Estilos como Bock, Doppelbock, India Pale Lager, entre outros são exemplos claros de Lagers que não são Pilsens.

Therezópolis Rubine: exemplar famoso de cerveja Lager que não é Pilsen!

O grande erro em tratarmos os termos Lager e Pilsen como sinônimos é que aquele diz respeito a uma família de cervejas, que é uma classificação mais ampla (comportando vários estilos, sendo o pilsen apenas um deles), enquanto este se refere a um estilo dentro dessa família, ou seja, uma classificação mais restrita.

Fica ainda mais difícil quando a própria cerveja se autodenomina Pilsen, sendo que na verdade é de outro estilo!

Heineken Lager, Stella Artois, Brahma, Antártica, Skol, entre outras são todas cervejas da família Lager, porém do estilo American Standard Lager (as três últimas), ou American Premium Lager (as duas primeiras).

A complexidade se esconde na simplicidade

Aprofundando um pouco em relação às Pilsens: essas são as cervejas mais injustiçadas.

Depois de um tempo imerso no mundo das artesanais, repleto de complexas Imperial IPAs e Russian Imperial Stouts, pode se tornar difícil apreciar a leveza de alguns estilos. E das Pilsens principalmente, muito devido à proximidade do paladar dessas cervejas com as Standard Lager, estilo mais comum entre as cervejas de massa.

Se você achou que demorou para começar a perceber as delícias por trás do amargor de um belo exemplar de IPA, espere para ver quanto tempo leva para encontrar prazeres escondidos na simplicidade de uma Bohemian Pilsner legítima.

Na verdade, devido à suavidade desse estilo, sua complexidade é ainda mais desafiadora aos sentidos, principalmente no paladar. É também devido a essa simplicidade que essas são cervejas de difícil execução, pois o mínimo erro sobressai às demais características.

Podemos dizer, portanto, que apesar do estigma, as Pilsener – aqui falamos das GermanBohemian e American – são cervejas desafiadoras no final das contas, tanto para os apreciadores, quanto para os mestres cervejeiros e cervejeiros caseiros.

Cerveja Lager Matsurika
A Matsurika, da cervejaria Japas, é um exemplar de Bohemian Pilsner brasileira.

E qual Cerveja Lager Brasileira devo comprar?

É inegável que as Lagers são as cervejas mais consumidas no Brasil.

Não só no Brasil. No mundo todo esse ponto se repete.

No entanto, essa máxima se aplica somente quando não estamos falando do mundo das cervejas artesanais.

No meio artesanal, a pobre Cerveja Lager sofre um baita preconceito e paga o pato pelo fato de as cervejas de massa serem feitas com essa levedura.

Se você se pergunta qual a melhor cerveja lager? ou Quais as melhores cervejas lagers brasileiras? Te respondo com quatro!

1- Cerveja Dádiva, Mafiosa e Avós Tripelbock

2- Cerveja WKattz Doppelwood

3- Cerveja Quatro Graus Doppelfalsch

4- Hop Lab Blank Mind Monk

A descrição de cada uma delas você consegue ver nos links que coloquei!

Os Estilos da família Lager

Como dito acima, Lager é uma família de cervejas que engloba vários estilos e vai muito além daquelas cervejas que lotam o cooler – ou o bom e velho isopor – nos churrascos de domingo.

Tem cerveja Lager clara, escura (sim!), mais amarga, mais doce, muito e pouco alcoólica e até de baconOk, esta última é mentira. Não levam bacon de verdade, mas são defumadas e lembram muito essa carne, tanto no sabor como no aroma.

Bateu uma curiosidade, não é? Então, vamos conhecer um pouco mais sobre os principais estilos da família Lager.

American Standard Lager

É popularmente conhecida no meio cervejeiro artesanal como suco de milho, ou suco de arroz, justamente por fazer farta utilização desses adjuntos na produção.

Muitas pessoas, inclusive, acreditam que é essa utilização de adjuntos que torna o produto pior, sendo certo que a questão vai muito além, como a fermentação acelerada, desrespeito ao tempo adequado de maturação, transporte e armazenamento inadequado, entre vários outros fatores.

Trata-se de um estilo pobre tanto em sabor quanto em aroma e costuma ser bebido a temperaturas baixas (próximas a zero grau), justamente para atender a proposta precípua do estilo que é refrescar.

De todo modo, trata-se de um estilo refrescante, bem leve, de coloração amarela bem clara e transparente, com espuma branca e de baixa retenção. Os melhores exemplares do estilo apresentam certa característica maltada e notas distantes de lúpulo.

Apesar de todos os pesares, trata-se do estilo de cerveja mais popular do mundo.

Mas, aqui, eu gostaria de abrir um parêntese:

Há pouco tempo, discutir sobre qual cerveja era melhor era algo mais passional que técnico, como quando se discute sobre times de futebol, sabe? Você elegia a sua cerveja do coração e a defendia fielmente. Afinal, o que existia até pouco tempo atrás eram várias marcas de cervejas extremamente parecidas e que são pertencentes a uma ou duas grandes cervejarias.

Porém, o que precisa ficar claro é que a "tipo pilsen" é apenas um dos mais de 100 estilos de cervejas possíveis.

E não tem nada de "raiz" em beber apenas "pilsen", assim como não tem nada de "nutella" em beber apenas cerveja artesanal. A história da cerveja tem mais de 6 mil anos, sendo que a "tipo pilsen" só passou a fazer parte dela nos últimos dois séculos.

Então se você é daqueles ou daquelas que diz que "cerveja artesanal é modinha", hoje é seu dia de sorte. Aproveita que, a partir de agora, você pode parar de passar vergonha.

American Premium Lager

O estilo American Premium Lager é, de modo geral, mais maltado e com menos adjuntos na composição se comparado ao American Standard Lager.

Muitas cervejas que se enquadram como American Premium Lager sequer fazem uso de adjuntos, razão pela qual são chamadas de cerveja “puro malte” (de cevada).

O que é uma cerveja puro malte?

Puro malte é justamente a cerveja que obtém todos os açúcares fermentáveis a partir da cevada maltada.

O conceito de “puro malte” acabou invadindo o conhecimento espontâneo das pessoas, que passaram a acreditar que qualquer cerveja boa precisa necessariamente ser “puro malte”.

Essa confusão se dá justamente por conta de uma interpretação equivocada da "lei de pureza alemã" e também por causa da qualidade questionável das American Standard Lagers, que não são “puro malte”.

Devemos nos atentar, no entanto, que o fato de um estilo que não é “puro malte” ser ruim não significa que todo estilo que admite adjuntos ou outros cereais maltados seja necessariamente ruim também, bem como não significa que toda cerveja “puro malte” seja boa, como explica Paulo Junior no texto Cerveja Puro Malte ou Puro Marketing.

Inclusive, há algumas cervejarias que se propuseram justamente a fazer cerveja com a utilização de cereais não maltados, não com a intenção de baratear ou acelerar a produção, mas sim de trazer leveza e refrescância para a bebida.

Para esclarecer: o problema não é, por si só, a utilização de cereais não maltados.

Quando utilizados para trazer refrescânciadrinkability e leveza para a cerveja, essa é uma escolha que cabe ao mestre cervejeiro e pode sim dar muito certo.

Pilsen

Está na hora de conhecermos as verdadeiras Pilsens.

Ah, uma observação importantePilsenPilsner e Pilsener são todas formas aceitas para se referir a esse estilo de cerveja.

Bohemian Pilsner

História:

O termo Pilsner tem origem no nome da cidade em que este estilo foi criado: a cidade de Plzeñ (Pilsen em português), localizada na República Tcheca. A origem do estilo se deu em 1842 e até hoje o processo de fabricação permanece o mesmo.

República Tcheca possuía grande tradição na produção de cervejas Ale desde a idade média.

No entanto, por conta da falta de padrão e da constante variação de sabor e qualidade, além de frequentes contaminações, houve uma manifestação em que os grandes mestres cervejeiros (alguns alegam que foram os próprios consumidores) da cidade rolaram 36 barris de Ale pelas ruas e os esvaziaram em plena praça pública.

Aquela cerveja havia se tornado imbebível e mesmo cervejarias de longa data possuíam cervejas contaminadas.

Diante disso, os cervejeiros que tiveram suas produções descartadas se uniram para evitar que esse tipo de situação voltasse a acontecer. Nessa época, estavam ainda sendo descobertas as propriedades da levedura. Para aprender mais sobre o tema, os cervejeiros de Pilsen contrataram Josef Groll, um mestre cervejeiro da região da Bavária, lugar este conhecido pela excelência das suas cervejas e pela utilização de fermento Lager para a produção dessas bebidas.

Fazendo a utilização de maltes claros, porções generosas do lúpulo Saaz e da levedura Lager, Groll, junto com os cervejeiros de Pilsen, em uma cervejaria municipal – que veio a ser chamada de Pilsner Urquell mais tarde, criou pela primeira vez, em 5 de outubro de 1842, uma nova cerveja diferente de tudo que qualquer pessoa no mundo já havia provado.

Análise sensorial:

Trata-se de uma cerveja com aroma floral proporcionado pela utilização de lúpulos nobres (em especial o Saaz), coloração amarela e aparência translúcida, com o malte claro equilibrando todo o conjunto. É uma cerveja sem notas frutadas. Para quem gosta de “cerveja com sabor de cerveja”, este é o exemplar perfeito.

A cerveja caiu nas graças do povo e passou a ser replicada por todo o mundo, até o ponto em que o nome da cerveja passou a ser o próprio nome do estilo.

urquell cevreja lager
A fábrica da Pilsner Urquell, onde tudo começou, ainda está lá!

 

A 2ª melhor do mundo é Carioca!

Agora, você sabia que uma das Bohemian Pilsner mais bem avaliadas do mundo no app Untappd (o mais utilizado entre consumidores de cerveja de todo o mundo) é carioca. Se você quiser experimentar esse exemplar legítimo de cerveja lager e pilsen (essa sim, é lager e pilsen), é só clicar aqui.

German Pilsner

Podemos dizer que as German Pilsner são meia-irmãs do tradicional estilo Bohemian Pilsner, tendo como única diferença mais perceptível o fato de serem um pouco mais claras e por vezes um pouco mais amargas que sua antecessora.

Na Alemanha, são mais chamadas de Pils, para diferenciar da versão tcheca.

Além disso, os ingredientes também são um fator de diferenciação entre as duas: a versão germânica utiliza lúpulos locais e água da região, que contém alta concentração de minerais.

Munich Helles

Em meados do século XIX, as cervejas de Pilsen começaram a fazer muito sucesso e os cervejeiros de Munique (Alemanha) temeram o fato de os alemães passarem a beber a cerveja tcheca, em vez da nacional.

O estilo Munich Helles foi justamente uma resposta a essa demanda por uma cerveja translúcida e com predominância do malte no paladar – características originais da Pilsner tcheca.

Se comparada com a Bohemian Pilsner, a Munich Helles possui um caráter um pouco mais maltado, adaptando-se ao paladar germânico que sempre foi mais voltado para o malte do que para o lúpulo.

Apesar de parecidas, a Munich Helles possui diferenças facilmente perceptíveis se comparada a Bohemian Pilsner e a German Pilsner.

Vienna Lager

O estilo Vienna Lager foi criado na Áustria por volta de 1830, pouco após o “descobrimento” do fermento Lager. No entanto, foi no México que o estilo fez mais sucesso, para onde foi levado por imigrantes austríacos.

Trata-se de uma cerveja com altíssima drinkability e que não deve apresentar notas de tostado e caramelo – segundo o BJCP (Beer Judge Certification Program – confira aqui o guia). Este é um dos grandes desafios na hora de se fazer essa breja, pois a aparência dela deve variar do âmbar ao cobre e é muito difícil alcançar essa coloração sem trazer as referidas notas indesejadas no paladar. Por conta disso, há muitos exemplares de Vienna Lager de grande qualidade, mas que acabam fugindo um pouco ao estilo.

amargor pode (e deve) estar presente, mas não deve ser exagerado. Afinal, não estamos falando de uma Bohemian Pilsner. Aqui, o IBU não deve ultrapassar de 30.

Oktoberfest/Marzen

O estilo Oktoberfest é inspirado no Vienna, visto acima. No entanto, é produzido na primavera europeia para consumo no festival homônimo ao estilo, que geralmente acontece no fim de setembro/começo de outubro.

Em relação ao estilo Vienna, o Oktoberfest é um estilo mais encorpado e que aceita a presença de maltes levemente tostados.

cerveja lager oktoberfest
O festival. Foto: site Dicas de Berlim.

American Amber Lager

Também inspiradas nas Vienna Lager, essas cervejas surgiram da insatisfação e criatividade americana.

A história é a seguinte: em meados de 1980, nos Estados Unidos, conforme se expandia a cultura cervejeira artesanal, alguns cervejeiros norte americanos começaram a demonstrar interesse pelas Lager. No entanto, a Pilsen – ou “grande lager”, digamos assim – pareceu a princípio um tanto sem graça para eles.

A partir dessa insatisfação, os americanos colocaram a criatividade para trabalhar e investiram em cervejas mais escuras, devido ao uso de maltes caramelizados, o que conferia a essas bebidas uma cor âmbar, aparência mais marcante, sabores de caramelo e corpo médio.

Essas cervejas são muito versáteis e alguns rótulos são produzidos utilizando técnicas características de cervejas Ale (ou seja, há exemplares de American Amber Lager híbridas).

Munich Dunkel (ou apenas Dunkel)

Apesar de ter origem em Munique, esse estilo se tornou popular mesmo na região da Baviera.

Essa é uma cerveja lager com sabor e aroma dominados pelo malte, com notas de chocolatepão e biscoito. Apesar da predominância desse ingrediente, as Dunkel não são cervejas doces e enjoativas, devido à presença do lúpulo, que equilibra todo o conjunto.

Schwarzbier

Filhas da Alemanha Oriental, a Schwarzbier (“cerveja preta” em Alemão) é um estilo de cerveja lager de amargor pronunciado – decorrente dos maltes torrados, mas de corpo leve a médio. Essas cervejas carregam alguma semelhança com as Dunkel, mas são mais escuras e secas, o que as aproxima das Irish Stouts (que são cervejas Ale).

As Schwarzbier ganharam popularidade depois da Reunificação da Alemanha, em 1990. Elas são a maior inspiração para as Black Lagers produzidas no Japão e também vêm fazendo sucesso nos Estados Unidos, onde atualmente se produz mais cervejas desse estilo do que na própria Alemanha.

Bock e suas variações

Traditional Bock

Esse estilo surgiu originalmente na cidade de Einbeck, ao norte da Alemanha. Já na metade do século XIV, as Bock dominavam as rotas comerciais por toda a Europa, chegando inclusive a Munique e se consolidando como um sucesso por lá.

Isso começou a despertar um certo ciúme dos vaidosos cervejeiros bávaros. Afinal, eles estavam sendo desbancados dentro de sua própria casa.

Conta a lenda que, por volta de 1612, o duque Maximiliano I convidou o principal mestre cervejeiro de Einbeck para visitá-lo em Munique. Um vez na cidade, ele foi impedido de retornar até que que reproduzisse em perfeição uma autêntica Bock.

A partir daí, as cervejarias bávaras passaram a produzir Bock de qualidade legítima e andar com as próprias pernas. Esse foi estopim da predominância cervejeira da Baviera (ou Bavária).

Passada essa parte histórica, vamos ao que mais importa: a cerveja. As Bock tradicionais são cervejas lager bastante alcoólicas (de 6% a 7% ABV), apesar de suaves, devido aos meses de maturação a baixas temperaturas.

De paladar adocicado, com notas de caramelo e pão torrado, com um final seco na boca. O corpo é médio e o amargor é suficiente para equilibrar o doce do malte. A cor vai do cobre profundo ao marrom.

Confira aqui um post inteiro sobre as Bocks e suas variações.

Doppelbock

“Doppel” significa “dobro” em alemão, porém é um tanto exagerado encararmos uma Doppelbock como uma “Bock em dobro”. Ela é sim uma versão mais forte desse estilo, mas não necessariamente tem o dobro de potência alcoólica.

Doppelbock, diferentemente da versão mais simples, nasceu já em Munique. A princípio, surgiu para servir de alimento a monges em longos períodos de jejum, quando não podiam ingerir alimentos sólidos.

Apesar da alta gradação alcoólica, essa é uma cerveja de sabor predominantemente maltado e suave, com notas de pão. O álcool, que costuma ficar entre 7% e 10% ABV, é bem inserido no conjunto. A cor costuma ser um pouco mais escura que a das Bock, indo do grená profundo a um quase preto.

Eisbock

A versão mais extrema das Bock. Conta-se que esse estilo foi descoberto por acaso.

O dono de uma taverna na região da Baviera teria esquecido algumas garrafas de cerveja Doppelbock do lado de fora do estabelecimento e, quando se deu por conta, as bebidas já estavam parcialmente congeladas. Sem muitas alternativas, ele decidiu servir as cervejas mesmo assim e – grata surpresa – os clientes adoraram o resultado.

Eisbock é praticamente uma Doppelbock concentrada: a bebida é submetida a congelamento e parte do gelo – basicamente água – é removida, restando o álcool e outros elementos na cerveja. Inclusive o termo “eis” significa “gelo” em Alemão.

Essas são cervejas bem alcoólicas – podendo ultrapassar os 14% ABV – e encorpadas. São licorosas e produzem suave sensação de aquecimento alcoólico. A cor vai do cobre profundo ao marrom escuro, podendo apresentar reflexos avermelhados. No aroma, o malte e o álcool se destacam, assim como no sabor, em que um equilibra o outro.

Eisbock é o estilo de cerveja lager mais complexo e potente que existe. No Mondial de La Bière de 2018 a cervejaria Thirsty Hawks chegou a lançar a Libidinosa, uma Eisbock com singelos 30% de teor alcoólico.

Rauchbier e Smoked Beer

Se você leu esse texto até aqui querendo saber sobre as já mencionadas “cervejas de bacon” (sim, acredito que alguém tenha feito isso, pois acho muito curioso esse negócio de cerveja de bacon e eu certamente seria uma dessas pessoas), já aviso: chegou a hora de falar delas.

A clássica Rauchbier é uma cerveja lager de especialidade da cidade Bamberg, na região alemã da Francônia. Sem dúvidas, a característica mais marcante desse estilo é o aroma defumado, que muitas vezes se assemelha assombrosamente a bacon.

Esse aroma, que também estende-se ao paladar, é consequência do uso de maltes secos em defumadores com lenha de madeira de faia. Ou seja, não há adição de bacon na receita (por mais que possa parecer que há).

As Rauchbier são cervejas bem peculiares e exigem uma mente mais aberta para serem compreendidas. São acastanhadas, com o aroma totalmente dominado pelo bacon. No paladar, o defumado também impera, com algumas notas frutadas coadjuvantes.

Nos Estados Unidos, as chamadas Smoked Beers (ou “cervejas defumadas”) formam um estilo de infinitas interpretações, inspirado no clássico Alemão. Alguns estilos mais usados como base para essas cervejas são Bock, Vienna e Dunkel.

Ah e se quiser se aprofundar mais sobre elas, temos um post inteirinho sobre as Rauchbier.

Cerveja Lager puro malte é melhor?

Para finalizar, acho que convém essa provocação. Muita gente fala sobre o assunto sem conhecer muito a respeito.

Para esclarecer essa situação, chamamos o Beer Sommelier Paulo Jr. (o rei das tretas), para explicar se realmente a utilização de adjuntos além do malte de cevada necessariamente piora a cerveja.

Confira aqui.

Ficou curioso e bateu aquela vontade de degustar uma Lager?

Você pode garantir alguns belos exemplares de cervejas Lager de onde você está neste exato momento e receber em casa clicando aqui.

Não deixe de contar pra mim nos comentários qual é a sua cerveja Lager favorita! A minha é a Brooklyn Lager.

Até a próxima!

6 Comentários



  1. POR FAVOR O TEOR DE ACUCAR E MENOR NA LAGER DO QUE AS COMUM

    OBRIGADO

    JOAO CARLOS

    Responder

    1. Fala, João. Tudo bem? Ser lager ou ser ale não determina a quantidade de açúcar da cerveja. Você tem que considerar o estilo, a quantidade de malte, quanto será fermentado. São vários fatores que influenciam na quantidade de açúcar de uma cerveja. Abraço!

      Responder


  2. Amei demais o post! Eu estou atualmente morando na Alemanha e fiquei curiosa para experimentar todos esses estilos de Lagers que tem por aqui. Antes de vir, eu tinha a impressão que era tudo muito parecido, mas na verdade não. E ontem mesmo eu comprei uma Eisbock no supermercado, sem nem saber o que era rs. Acabei de aprender! Vamos ver se vou curtir…

    Responder

    1. Ah, que bom Isabela! Lager ainda sofre um pouco de preconceito com as pessoas que curtem cervejas artesanais, mas a verdade é que é só um outro tipo de bichinho (levedura), que assim como a Ale gera álcool e CO2 para o nosso líquido sagrado. Não tem nada a ver com a qualidade da cerveja! Depois compartilha aqui comigo se você curtiu. Eisbock é PEDRADA!

      Responder

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