6 Dicas Para Se Tornar Um Autodidata Em Cerveja Artesanal

Não é todo apaixonado por cerveja que tem na bebida sua profissão, certo? Para muitos, a cerveja é um hobby e, por mais que sobre curiosidade a respeito do assunto, às vezes falta disposição ($$$ – brincadeira, hehe) para investir em conhecimento sobre o nosso líquido sagrado.

Pensando naqueles que se encontram nessa posição, convidei o Mateus Vidigal, autodidata assumido e orgulhoso quando o assunto é cerveja artesanal, para escrever aqui no blog. O Mateus tem um perfil no Instagram, onde compartilha avaliações, percepções e comparações de diversas cervejas.

Posso até ser suspeita para falar, já que eu mesma o chamei aqui, mas o @horadebeber (o perfil cervejeiro do Mateus no Instagram) é um canal imperdível para quem curte boas cervejas e busca conteúdo de qualidade.

Mas, Larissa, o que o Mateus veio fazer aqui no Cerveja Mestra afinal? – você deve estar se perguntando.

Pedi que ele reunisse algumas dicas para ajudar você, bebedor comum, interessado e de coração aberto, a começar a evoluir seu conhecimento cervejeiro sozinho e sem sair de casa.

Ficou curioso? Então confira abaixo tudo que o Mateus nos falou sobre estudar cervejas por conta própria.

Fotão lá do @horadebeber

Seis dicas para ser um autodidata em cerveja artesanal

por Mateus Vidigal – @horadebeber

Não tenho a intenção de fazer aqui uma lista dos “seis mandamentos do autodidata” e dizer que, somente seguindo à risca tais sugestões, será possível obter alguma evolução no mundo das cervejas artesanais. Tenho noção de que existem muitos assuntos e tópicos envolvendo cerveja que fogem ao meu alcance.

Seria até pretensioso dizer que domino algum assunto relacionado a cerveja. Também devo dizer que nunca fiz um curso sequer.

Cá entre nós: o simples fato de participar e se formar em cursos cervejeiros não significa lá grande coisa.

Apesar de toda essa auto-desautorização inicial, acredito que cheguei a um patamar de conhecimento cervejeiro razoável e que, para alguém que não tem formação na área, consigo analisar uma cerveja com o mínimo de coerência. Sendo assim, a convite da Larissa, tentei elencar algumas dicas que têm sido úteis na minha nem-tão-curta-assim vida cervejeira.

Espero que, de alguma forma, elas sejam ser úteis para outras pessoas também. Vamos lá!

Busque aumentar sua percepção sensorial

Vou tomar este assunto como ponto de partida.

É preciso estar atento àquilo que se bebe e que se come a fim de criar uma bagagem sensorial mais extensa. Assimilar cheiros e sabores, reconhecer cores e texturas é muito útil na hora de avaliar se uma cerveja está dentro do estilo ou não, além de perceber sua complexidade e a execução do estilo.

“Como posso aumentar minha percepção?”

Pode parecer uma dica um tanto quanto desconectada do meio das cervejas, mas prestar atenção naquilo que faz parte da sua alimentação e do seu dia a dia ajuda muito. Do café ao chá, do pão ao chocolate, da fruta ao suco, do tempero às sobremesas, da água ao licor. Tudo isso faz parte de uma vasta e infinita gama sensorial que lidamos cotidianamente.

Por exemplo: saberia identificar o cheiro de canela, de cravo ou de favas de baunilha? Conseguiria dizer qual erva ou tempero te vem à mente a partir do aroma/sabor condimentado numa cerveja do estilo Saison? E quanto ao chocolate que identificou numa Stout: está mais para o amargo ou ao leite? O discreto dulçor numa Bohemian Pilsner, parece pão ou biscoito? E esse café, está mais “verde” ou torrado? Tal lúpulo trouxe um perfil cítrico mais puxado para limão, laranja ou tangerina (ou todos juntos), ou te lembrou aroma de flores?

São inúmeros exemplos e existem inúmeras nuances entre eles. Algumas dessas perguntas são mais simples de responder, outras nem tanto. O que quero dizer é: preste atenção àquilo que come e bebe, sendo cerveja ou não. Todas essas características, quando assimiladas, podem te ajudar futuramente no crescimento do seu próprio repertório sensorial.

Leia (muito) sobre cerveja

Temos cada vez mais material disponível em livrarias e, principalmente, na internet. A quantidade de literatura sobre cerveja é impressionante e te faz lembrar a todo momento que você não sabe “nada sobre coisa nenhuma”.

Se estiver curto de grana para comprar livros e mais livros (são muitos), não precisa se preocupar. É bem fácil encontrar bons materiais gratuitos que te ajudarão a entender mais sobre esse universo.

Como ilustração, posso citar o BJCP, um ótimo guia: é didático, traz a história de cada estilo, com suas características visuais, aromas e sabores, além de promover comparações entre diferentes categorias e subcategorias de cerveja. A versão mais recente, datada de 2015, ainda não foi traduzida (se não estou enganado). Porém, existem versões mais antigas disponíveis em português.

Escreva suas impressões

Acho que é importante anotar suas percepções de alguma forma. Não precisa postá-las em lugar algum, nem compartilhar com alguém se não quiser – apesar de achar bem valioso trocar ideias cervejeiras. Penso que escrever sobre o que se bebe é uma forma de enxergar sua evolução e externalizar suas dificuldades.

Veja bem, não estou falando para escrever apenas análises. Estou dizendo para fazer anotações sobre suas dúvidas, pensamentos, inquietações de uma forma geral. Isso pode te auxiliar a traçar um caminho para sanar esses questionamentos.

Beba (muita) cerveja

Essa parte é a mais óbvia – e a mais divertida, acho. Busque criar uma frequência (com responsabilidade) no consumo de cervejas artesanais. Ainda que não vá escrever análises formais, limpe o paladar com água (e se hidrate) entre uma cerveja e outra; leia a respeito do estilo que irá consumir, ainda que seja apenas o rótulo da cerveja; procure fazer degustações de estilos e suas subcategorias, a fim de tentar identificar as diferenças entre eles.

Por exemplo: Standard American Lager, Premium American lager, Munich Helles, German Pilsner e Bohemian Pilsner. Ou então: Session IPA, American Pale Ale, English India Pale Pale Ale, Double India Pale Ale, etc. A princípio, cada uma das cervejas apresentadas nessas duas sequências guardam semelhanças e diferenças. Tentar identificá-las é um ótimo exercício.

Outro ponto importante dentro deste tópico: tente extrair o máximo da cerveja que irá beber. Procure saber mais sobre temperatura de serviço das cervejas, se possível, sirva em copos ideais para aquele determinado estilo, armazene de forma correta. Isso faz muita diferença e, ao meu ver, é uma forma de “homenagear” todo trabalho daqueles que estão por trás daquela bebida.

Tenha paciência com seu processo de aprendizado

Quando comecei a ler e (tentar) fazer análises de cervejas, me achava um completo ignorante por não perceber o aroma X e o sabor Y enquanto outras pessoas eram capazes de escrever teses de doutorado sobre aquela cerveja.

Perdido nos fóruns do Brejas, me questionava: como essas pessoas sabem tanto e onde conseguem tanta informação? Sequer sabia distinguir gostos provenientes dos maltes daqueles vindos dos lúpulos, quem dirá aqueles que são subprodutos da fermentação…

Minha dica é: tenha paciência, use seus olhos, nariz, boca e abra sua cabeça para os aromas, sabores e texturas das cervejas. Não ignore suas referências. Não é vergonha alguma sentir algo que ninguém percebeu, ou errar o nome e as características de uma cerveja qualquer. Fuja dos beerchatos, existem muitos por aí (não se torne um também, é uma boa dica).

Aprender sozinho é possível e não é tão complicado como pode parecer no começo.

Respeite seu gosto, mas não deixe de questioná-lo

Sei que todos nós temos nossas preferências de estilos e nossas antipatias a um certo aroma, sabor ou textura. No entanto, penso que a cerveja tem um grande potencial de “desconstruir paladares”.

Já tive resistência a muitos ingredientes da culinária de uma forma geral, não gostava de certos estilos de cerveja, mas sinto que, com o passar do tempo, tenho desenvolvido um paladar cada vez mais aberto. “Sem preconceitos”, digamos.

Atualmente, não consigo apontar um estilo ou subcategoria de cerveja que eu não goste ou tenha grandes restrições.

Claro, tenho minhas preferências e prefiro gastar meu dinheiro com elas. Seria hipocrisia dizer o contrário. Mas você não vai me ouvir falando que tal estilo é ruim, que não presta ou que não vale a pena experimentar. Uma dica para essa “desconstrução de paladar” é investigar aquilo que provoca resistência a certos sabores ou aromas, tentar construir um caminho para entender a proposta daquela cerveja a fim de compreender o que foi feito ali para, quem sabe então, aprecia-lá – ou, ao menos, não odiá-la.

Como ilustração: se você é uma pessoa que não gosta de sabores amargos, não comece por uma India Pale Ale; se não gosta de café, talvez não seja uma boa ideia se aventurar com Imperial Stouts num primeiro momento. Procure provar cervejas com amargor mais suave e busque acostumar seu paladar com amargor gradualmente mais intenso. Comece por cervejas mais leves, com teor alcoólico reduzido, e vá crescendo com calma.

Realmente acredito que seja possível chegar a um ponto de amadurecimento de paladar em que todos os estilos serão apreciáveis. Não estou dizendo que você irá morrer de amores por todos os estilos, mas realmente acho que há um momento em que irá desfrutar de qualquer um deles.

Como eu disse, não se trata de uma receita de como se tornar um autodidata (afinal, o que quero dizer com essa denominação?). Ainda tenho muito, muito a aprender.

Espero que essas dicas sejam úteis, de alguma maneira, ainda que pareçam óbvias. Caso tenha alguma dúvida, frustração ou só queira me xingar mesmo, basta procurar o Hora de Beber no Instagram (@horadebeber), Facebook e Medium. Saúde!

Mais uma foto incrível do @horadebeber, só pra você sentir o nível!

1 Comentário


  1. Boa tarde.
    Agradeço ao material , que sempre é dividido para pessoas como eu que esta querendo iniciar neste meio, incentivando a ser um cervejeiros artesanal.

    Responder

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