Cerveja Puro Malte ou Puro Marketing?

“Cerveja Puro Malte é que é boa”; “Cerveja boa se faz apenas com água, malte e lúpulo”! Se você está minimamente ambientado ao universo das cervejas artesanais, já deve ter ouvido alguém falar mal de cervejas feitas com milho, arroz, ou outros cereais que não o tão adorado malte.

Talvez você mesmo seja um destes defensores da pureza cervejeira, baseando-se em uma antiga lei alemã que estabelecia apenas o uso dos ingredientes citados no início do parágrafo como adequados para a produção da bebida.

O que talvez você ainda não saiba é que, ao contrário do que crê o imaginário popular brasileiro, a cerveja não surgiu na Alemanha e sua produção é muito mais antiga e abrangente do que esta famigerada lei.

Ficou surpreso? Pois é… abaixo, abordarei cinco mitos cervejeiros muito difundidos pelos adeptos do “mimimilho” e tentarei explicar os motivos pelos quais eles não passam de pura bobagem:

1. A Lei de Pureza Alemã determina os ingredientes para produzir cervejas de boa qualidade

Invocar a Lei de Pureza Alemã de 1516, também conhecida como Lei de Pureza da Baviera ou apenas Reinheitsgebot, como argumento em defesa das cervejas puro malte é procedimento padrão entre cervejeiros incautos, sejam eles novatos ou experientes.

Muitos deles sentem-se enganados ao descobrirem que as cervejarias de grande escala não utilizam apenas cevada em suas cervejas e, revoltados por supostamente terem sido feitos de trouxas por tanto tempo, passam a se portar como verdadeiros gladiadores contra os cereais não maltados.

Agem como profetas da boa nova cervejeira, espalhando a mensagem da lei promulgada na Baviera há mais de 500 anos pelo Duque Guilherme IV como forma de convencer os novos convertidos a pararem de beber “água de milho”.

O que muitos desses novos especialistas desconhecem é que a tal lei alemã não tinha lá muito a ver com qualidade de fato, mas sim com regulação de preços, impostos, brigas políticas e possivelmente até mesmo conflitos religiosos.

A maioria deles também não sabe que esta lei já não está mais plenamente em vigor há muitos anos, nem sequer no próprio território alemão.

Uma breve lida na coluna Dois Dedos de Colarinho, do jornalista e cervejeiro Marcio Beck, já esclarece bastante coisa sobre o tema Acesse clicando aqui.

cerveja puro malte
Malte de cevada, lúpulo, levedura e água, nesta ordem. (Foto: Portal Box88)

2. O malte é o cereal de melhor qualidade para produzir cervejas

Esse é um daqueles argumentos que me fazem reagir com um grande facepalm.

Em primeiro lugar, porque malte nem sequer é um tipo de cereal. Malte é o resultado de um processo de germinação e secagem de grãos. Existe uma infinidade de cereais que podem ser malteados, inclusive o tão odiado MILHO!

Como o processo de produção de cerveja consiste basicamente em cozinhar os grãos em temperatura controlada para que as enzimas possam transformar o amido em açúcar, a malteação torna-se necessária porque é através dela que se consegue obter a melhor proporção de enzimas e amido para realizar esta conversão com melhor aproveitamento (e, consequentemente, menor desperdício e menor custo).

Para uma leitura técnica sobre o malte e seu processo de produção, recomendo uma visita ao site Cervesia.com.br. Confira também o post sobre maltes aqui no Cerveja Mestra.

3. Só cerveja puro malte é realmente boa

O newbie cervejeiro, entusiasta que se torna, costuma ser presa fácil para os profissionais de marketing das cervejarias.

Usar a nomenclatura “puro malte” nos rótulos para passar ao cliente a impressão de ele está diante de um produto de melhor qualidade é tática das mais antigas (e mais sujas) do mercado cervejeiro brasileiro.

Na verdade, este termo está baseado meramente em uma questão legal de classificação de bebidas, determinada em 1997 através do decreto 2.314, atualmente já substituído pelo decreto 6.871 de 2009.

O texto frio da lei diz que só é uma cerveja puro malte “aquela que possuir cem por cento de malte de cevada, em peso, sobre o extrato primitivo, como fonte de açúcares”.

Na prática, a nomenclatura “puro malte” não é um selo de qualidade. Ela significa apenas que cervejas que contenham esta informação no rótulo não possuem outros cereais na sua composição.

Sabe aquela cerveja de trigo maravilhosa que você tomou e adorou? Então, no Brasil, ela não pode ser chamada de “puro malte” por força da lei, mesmo que contenha apenas cevada e trigo maltados.

Leia aqui o decreto 6.871 na íntegra clicando aqui.

4. Cereais não maltados estragam a cerveja

Muitas coisas podem tornar uma cerveja ruim, durante e após a sua produção. Mas certamente os cereais não maltados não estão entre elas (exceto por questões de gosto pessoal).

Nas escolas belga, inglesa e americana é extremamente comum o uso de aveia, trigo, centeio, sorgo, arroz, milho e a própria cevada não maltada, visando obter resultados muito específicos e adequados a cada estilo.

Cereais não maltados podem servir para trazer turbidez, cremosidade, acidez, para melhorar o aspecto e a retenção da espuma, para deixar a cerveja mais límpida e leve, ou até mesmo para produzir cervejas sem glúten. Quando bem utilizados, os cereais não maltados irão trazer mais benefícios técnicos do que problemas para qualquer cerveja.

5. As cervejas pilsen populares no Brasil são ruins porque contém milho (e/ou arroz)

Aqui temos já de cara um problema de comparação entre estilos diferentes de cerveja. Na verdade, as cervejas que chamamos de “Pilsen” no Brasil não são pilsens de verdade, mas sim Standard American Lagers (SAL).

Portanto é um erro achar que elas são diferentes das clássicas pilsners tchecas apenas por causa do uso de milho ou arroz.

O que acontece na verdade é que cervejas do estilo Standard American Lager costumam ser muito leves e até mesmo aguadas, pois são específicas para consumo durante o verão e em lugares de clima quente, como o Brasil.

Além disso, em geral estas cervejas não levam milho e arroz de fato, mas sim um xarope de açúcar obtido a partir destes cereais ou mesmo de outros vegetais como a mandioca, chamado de “high maltose syrup”.

O uso deste tipo açúcar têm papel fundamental para obter essa leveza que o estilo pede, pois permite chegar ao teor alcoólico desejado para a bebida utilizando menor quantidade de cereal em grãos, evitando trazer para ela outros elementos como proteínas complexas, cadeias de amido não convertido e partículas sólidas em geral.

Na grande maioria das vezes, os defeitos das cervejas de larga escala estão relacionados a negligências e erros durante o processo de produção (fermentação acelerada, maturação incompleta, transporte e armazenamento inadequados, entre outros), e não aos seus ingredientes.

Para entender as diferenças entre estilos de cervejas, consulte o Guia de Estilos BJCP.

Podemos concluir então que o mito do puro malte não passa de uma mistura de muita desinformação por parte do consumidor com um tanto mau caratismo por parte de algumas cervejarias (grandes e pequenas), que mentem e/ou omitem informações sobre os verdadeiros critérios que podem conferir qualidade às suas cervejas.

Em resumo: existem ótimas cervejas que não são puro malte e péssimas cervejas que utilizam apenas cevada maltada em suas receitas. E não é apenas o uso destes ingredientes que vai determinar a qualidade ou a falta dela em uma cerveja.

Grande abraço e até a próxima! #FreeMilho #DigaNãoAoMimimilho

OBS do Editor: muitas pessoas pensam que essa postagem veio ao mundo para, de certa forma, defender as “Grandes Cervejarias”. Não é isso.

De fato, as cervejas de massa possuem problemas de “qualidade”. Porém esses problemas não estão relacionados ao fato de serem ou não cervejas puro malte.

Como exposto pelo autor da postagem, os problemas estão relacionados à fermentação acelerada, maturação incompleta e transportes/armazenamento inadequados.

Para que você tenha uma ideia, uma cerveja que deveria levar aproximadamente quatro semanas para ficar pronta, é produzida pela grande indústria em cerca de 12 horas.

No mais, conheça o nosso manifesto contra as grandes cervejarias, que é o www.brosbeer.com.br, uma loja online cuja carta é composta 100% de cervejarias independentes.

No Bro’s Beer, levantamos a bandeira do Craft Beer Carioca (são mais de 100 rótulos do Rio de Janeiro) e, em hipótese alguma, faríamos uma postagem para vangloriar aqueles que tentam pasteurizar o paladar do público cervejeiro, vendendo a ideia de que “cerveja” é uma coisa só.

12 Comentários


  1. Excelente texto. Direto, objetivo e claro. Eu so acho uma pena ainda se falar disso. Pq eu faço minha ceveja com aveia, chocolate, mel ou qualquer fruta e ninguem reclama, agora se eu falo que usei milho….. noooooossa que celeuma

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  2. Olá, apesar de concordar com quase toda a informação apresentada no excelente texto, a minha opinião final é que ele presta um desserviço a propagação da cultura e consumo cervejeiro. E explico porque. Primeiro o cerne do texto a, expressão “Puro Malte”, é algo que a única pessoa quem se preocupa com isso, na minha opinião, é o Antônio Fagundes. Nunca vi em toda a minha vida alguém pedir ou comprar uma cerveja porque é puro malte.
    Segundo, acredito que felizmente aqui no Brasil atualmente, a grande maioria dos que consomem Cerveja Especial não se preocupam com a Lei de Pureza Alemã, vide o sucesso de cervejas com maracujá, limão siciliano, cacau, mel, rapadura, trigo…
    Desde que, esses ingredientes sejam utilizados para agregar aroma, sabor ou textura a cerveja, são sempre bem vindos! Mas sabemos que esse não é o objetivo das cervejas Standard, onde o cereal não maltado entra com o único objetivo de baratear os insumos utilizados e poder vender “Latão a R$1,99″!!!!
    Agora, porque o desserviço a que me referi no início da minha resposta? Pelo simples fato que alguém que ainda seja consumidor de cerveja Standard leia esse texto vai pensar: ” Viu, não falei que isso era tudo conversa pra vender cerveja mais cara? Vou continuar tomando minha Standard Skol!!”
    E aí esse incauto deixa de adentrar ao maravilhoso mundo cervejeiro!
    Parabéns, a alma estava na porta do paraíso, e após ler o texto foi abduzida para as entranhas mais profundas da AMBEV!!!!
    Tudo isso é a minha opinião apenas!

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    1. Fala, Marcos! Eu trabalho há alguns anos diretamente com atendimento ao público em bares e eventos cervejeiros aqui do RJ e, acredite, a quantidade de pessoas que me perguntam se as cervejas que estão disponíveis são “Puro Malte” ainda é muito grande. Sempre que possível, eu tento bater um papo e explicar que ser “Puro Malte” Não diz muito sobre a qualidade do produto e pra isso uso alguns dos argumentos que citei aqui no texto. Obrigado pelo seu comentário e desculpe a demora em responder… Só hoje vi que estava pendente. Grande abraço!

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  3. O comentario do Marcos Paulo foi melhor que o artigo. Que tal o autor, que se diz cervejeiro, citar 5 cervejas de milho que considera excelentes?

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    1. Fala, Roberto! Bom, em primeiro lugar, é bom esclarecer que eu sou cervejeiro caseiro há 5 anos e sommelier de cervejas há 4, mas não acho que isso seja um ponto crucial em relação à validade dos argumentos que usei no texto (que sinceramente espero que você tenha lido na íntegra, incluindo os links que usei como fontes). Sobre o seu “desafio”, não dá pra dizer 5 cervejas maravilhosas que usam milho pq quase nenhuma cervejaria usa milho de fato na sua produção mas sim um xarope de açúcar que pode ser obtido a partir do milho (como eu tentei deixar claro no item 5). De qualquer forma, cito facilmente 5 ou mais ótimas cervejas que usam cereais não maltados em suas receitas:
      – Rodenbach Grand Cru
      – La Trappe Witbier
      – Westvleteren XII
      – Tripel Karmeliet
      – Samuel Smith Oatmeal Stout

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  4. Esses cereais são utilizados para baratear o produto, ou para ajudar a escoar a safra. Agora dizer que é a mesma coisa que a cerveja “puro malte” aí já é brincadeira. Vai dizer que não existe diferença na qualidade e características finais do produto, vai querer convencer que o queijo catupiry é igual ao “catupiri” que colocam na sua pizza mais baratinha. Que a cidra é praticamente champanhe, a diferença é só o grau da ressaca. Vai dizer pro dono da boca de fumo que aquele pó batizado com talco é melhor que o purão, até com pó de mármore “da pra usar legal”.
    Cervejas com cereais não maltados, comercialmente, deveriam ser classificadas como produto genérico, ou similar.
    Pessoalmente, quem não vê ou sente diferença no produto tem que escolher pelo preço e não pela marca.

    Abçs

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    1. Fala, Paulo! Beleza? Quando cereais não maltados são usados para baratear o produto, como vc bem apontou no seu comentário, certamente influenciarão negativamente na qualidade da cerveja. Porém, nem sempre o cereal não maltado é utilizado com essa finalidade. Uma Witbier, tradicional cerveja belga de trigo, leva originalmente 50% de trigo não maltado na sua receita. Ou seja, todas as Wibiers que você já degustou não eram cervejas consideradas puro malte. É disso que o texto fala. Que apenas o fato de uma cerveja ser puro malte não é o suficiente para atestar a qualidade dela, apesar da grande indústria utilizar esse termo como selo de qualidade dos seus produtos “premium” (que muitas vezes são puro malte, mas também cheios de aditivos, corantes e conservantes). Existem cervejas que não são puro malte que são excelentes, enquanto existem cervejas que são puro malte e deixam a desejar.

      Abração e muito obrigado pelo comentário!

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